Patricia Cardoso
A primeira favela do Rio ganhará nos próximos meses uma nova forma de acesso. Em vez de percorrer vias estreitas e ladeiras, os moradores da Providência poderão subir e descer o morro usando o teleférico. Ao todo três estações vão interligar a comunidade com a Central do Brasil e com a Cidade do Samba.
Segundo a Secretaria Municipal de Habitação, responsável pela obra, serão 16 cabines com capacidade de transportar oito pessoas sentadas e duas em pé. A expectativa é que duas mil pessoas usem o equipamento por hora. No começo de abril, o teleférico entrou em fase de teste e a Prefeitura aguarda apenas o fim de pequenos reparos para inaugurar a novidade.
Para quem mora ou visita o Complexo do Alemão, esse meio de transporte já faz parte da rotina. Em funcionamento desde 2011, aproximadamente 12 mil moradores e turistas o utilizam diariamente. São seis estações distribuídas ao longo de 3,5 quilômetros de extensão e o teleférico é interligado à rede ferroviária na estação Bonsucesso. O projeto foi inspirado no teleférico que interliga favelas em Medellín, na Colômbia e é o primeiro sistema de transporte de massa por cabos no Brasil.
Durante o seu funcionamento ao longo dos últimos dois anos, a presença de turistas brasileiros e estrangeiros vem crescendo no Alemão. De acordo com dados da Supervia, empresa que administra o transporte, 70% dos usuários em janeiro não eram moradores. Esse número demostra a tendência da comunidade em se tornar uma referência turística na cidade.
Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas em 2011 comprovou o interesse dos turistas em visitar as favelas cariocas. Mais da metade deles responderam que tinham curiosidade em conhecer uma comunidade. Mas, ainda de acordo com a pesquisa, esse serviço turístico ainda precisa melhorar, já que existe uma demanda de informações sobre a história do local e suas atrações.
Muitos moradores do Alemão acreditam que o teleférico ajudou na valorização da comunidade, já que as pessoas estão podendo conhecer melhor o lugar, construindo uma nova imagem que deixa para trás o histórico de violência e repressão. A fim de incentivar o desenvolvimento do turismo, comerciantes locais estão sendo treinados em inglês e espanhol, em projeto do Ministério do Turismo.
Apesar das melhorias, os moradores também fazem críticas. Muitos dizem que a comunidade precisava de investimentos mais urgentes de infraestrutura do que a criação de um teleférico. Pelos becos do Alemão é comum ver esgoto a céu aberto, montanhas de lixo, falta de pavimentação e obras inacabadas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O transporte não é uma preocupação tão relevante para a população local. O desejo maior dos moradores é a instalação de hospitais e postos de saúde na região, segundo dados da pesquisa de campo realizada no Complexo do Alemão pelos engenheiros Nino e Willian de Aquino e Wallace Pereira, diretor da SINERGIA.
Além disso, nos moldes atuais, o funcionamento do teleférico é antieconômico para o governo estadual, que banca o projeto. Como a passagem custa R$ 5 e 55% dos usuários usa a gratuidade, o Estado precisa desembolsar R$ 2 milhões por mês. Com isso, cada viagem custaria em torno de R$6,70, mais que o dobro de uma passagem de ônibus municipal. Mesmo assim, além do teleférico da Providência, o governo ainda estuda a construção do teleférico na Rocinha nos próximos meses. A obra está no pacote de projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).