O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Do Cristo para a laje

Renata Pessôa


Os turistas que chegam ao Rio gostam de conferir de perto todas as belezas naturais da cidade. Mas agora os destinos procurados não são apenas os tradicionais, como o Pão de Açúcar ou o Corcovado, e sim as favelas da cidade. Desde que o governo implantou o sistema de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) nas comunidades, passeios pelo morro Santa Marta ou pela Rocinha são cada vez mais comuns entre os visitantes que desembarcam no Rio, principalmente os que vêm de fora do país. Dos estrangeiros que desembarcam no Galeão, 51,3% têm interesse em conhecer favelas, procurando uma perspectiva diferente sobre a realidade da cidade, segundo uma pesquisa feita pela FGV.

A ideia começou devagar, mas o site Viva Favela afirma que hoje cerca de 20 estrangeiros participam diariamente do tour no morro Santa Marta, primeira comunidade a receber, em 2008, uma UPP. De lá para cá, 32 favelas já foram pacificadas, beneficiando 1,5 milhão de pessoas e incentivando esse tipo de turismo.

No Dona Marta, entre os atrativos turísticos estão o Plano Inclinado - elevador que percorre toda a extensão da favela - e a Laje Michael Jackson, onde, em 1996, o cantor gravou o clipe de “They don’t care about us” com o grupo Olodum. Os estrangeiros se impressionam com o tamanho da comunidade, se encantam com a vista privilegiada, e de quebra ainda recebem a hospitalidade da maioria dos moradores, que já se acostumaram com a rotina de receber visitantes nas favelas.

Alguns ainda olham com desconfiança e por vezes se incomodam com a falta de privacidade, já que os novos turistas gostam de tirar fotos de tudo e todos. Mas, como mostra a pesquisa da FGV, o objetivo dos estrangeiros é conhecer um estilo de vida diferente. Quase 40% afirma que a visita superou as expectativas e destaca como motivo para isso a arquitetura do local, a vista da cidade, e o conhecimento de projetos sociais. Os visitantes estrangeiros recusam, assim, a ideia de que as agências que promovem o turismo em favelas estariam lucrando com a miséria da população.

Alguns estrangeiros se apaixonam tanto pelas comunidades que resolvem voltar – mas para ficar. É o caso dos franceses Benjamin Cano e Louis Planès. Os dois encontraram na ladeira Saint Roman, principal acesso à favela do Cantagalo, uma oportunidade de abrir um hotel butique: a Casa Mosquito. Benjamin explica que a gentileza dos moradores, a cultura do povo e o clima da cidade fizeram os dois investir no local. Hoje, a Casa Mosquito recebe 90% de turistas estrangeiros e tem como lema “Viva um Rio de verdade”. E Benjamin afirma: “Não existe um local como o Rio em lugar nenhum do mundo”.