O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Falta de escolaridade prejudica ex-catadores de lixão

Igor Ricardo

Com o fechamento do Aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, os catadores que viviam na região foram obrigados a procurar outros meios de sobrevivência. Uma indenização de R$ 21 milhões, paga pela Prefeitura do Rio, chegou a ser dividida entre 1.700 catadores, cerca de R$ 14 mil para cada um, mas a perspectiva de melhoria de vida desses profissionais esbarra na falta de escolaridade. Cerca de 23%, ou seja, quase 400 catadores, são analfabetos, segundo apurou uma pesquisa do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade). A situação se agrava quando o analfabetismo funcional (pessoas com menos de quatro anos de estudo) é considerado: mais de 40% dos catadores são enquadrados neste tipo de deficiência.

Divulgação / Prefeitura de Duque de Caxias
O problema também se encontra no bairro de Jardim Gramacho. A taxa de matrícula nas redes de ensino da região passa por uma significativa diminuição, de acordo com o mesmo estudo do Iets. Enquanto para os anos iniciais do Fundamental existem 1.853 matrículas, os anos finais têm 1.355 (quase 500 a menos) e o Ensino Médio, 722 matrículas (600 a menos). Os números evidenciam dois possíveis cenários. Um é o de evasão escolar, quando os alunos deixam de estudar na medida em que avançam nos anos escolares, e o outro é a hipótese de que eles estão indo se qualificar em outros bairros. Uma solução para o déficit educacional dos catadores seria ingressar no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em Jardim Gramacho, há duas escolas que abrigam o projeto.

A atual situação dos antigos catadores do aterro é objeto de discussão da Comissão de Desenvolvimento Urbano, da Câmara dos Deputados. A instituição realizou uma audiência pública nesta quarta-feira para expor as reais condições desses profissionais. Cinco meses depois da desativação do lixão, e apesar da indenização recebida, os catadores continuam passando por sérias dificuldades financeiras, como mostrou uma reportagem da EBC. A catadora Lucia Helena de Souza, de 54 anos, questionava a utilidade do valor recebido como compensação pelo fechamento do aterro.

“Mudou tudo, meu filho. Ficou muito difícil. O negócio da gente era o lixo. O que adiantou ganhar aquele dinheiro e mais nada? Eu já estou velha, como é que vou arranjar serviço?” reclamou a ex-catadora, em depoimento à TV.

Solução imediata é atuação nas coletas seletivas

O deputado federal Adrian (PMDB-RJ), que preside a subcomissão de Política Nacional de Resíduos Sólidos, defende o apoio às cooperativas de catadores de lixo, dando a elas a oportunidade de atuarem na coleta seletiva das cidades. O parlamentar também propôs, durante sessão no plenário, a ideia de que os municípios façam acordos com as cooperativas. Sendo assim, haveria a continuação do fluxo de renda vindo do recolhimento de lixo.

O aterro de Jardim Gramacho tinha 34 anos de existência, e se estendia por uma área de 1,3 milhão de m², à beira da Baía de Guanabara. O local recebia, até abril de 2011, cerca de 9.500 mil toneladas diárias de resíduos da capital (75%) e dos municípios de Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Queimados e Mesquita (25%), todos da Baixada Fluminense. O fechamento do maior lixão da América Latina foi provocado por causa dos compromissos assumidos pelo Rio de Janeiro com o Comitê Olímpico Internacional (COI) para sediar as Olímpiadas de 2016. No caso, era preciso acabar com o aterro para que se iniciasse o processo de despoluição da Baía de Guanabara, palco de provas de iatismo.