O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

terça-feira, 14 de maio de 2013

A Mercedes e os Leleks


Renata Pessôa
O grupo carioca “MC Federado e os Leleks” pode até ter sonhado com fama e sucesso, mas provavelmente não imaginou que teria seu hit embalando a trilha sonora do novo comercial da Mercedes-Benz. No começo desse mês, a marca alemã divulgou um vídeo lançando seu novo Classe A ao som do “Passinho do Volante”, música que marcou o carnaval carioca. Se aproveitando do refrão “Ah, lelek lek lek/ Girando, girando, girando pra um lado/ Girando, girando, girando pro outro”, o vídeo mostra o carro fazendo manobras com a letra A em destaque.
Se a intenção da Mercedes era fazer barulho, conseguiu: o comercial já ultrapassou dois milhões de visitas no youtube. O público está razoavelmente dividido entre os que gostaram e os que não aprovaram a iniciativa da marca: até agora, 11.503 pessoas clicaram em “gostei”, enquanto 8.317 clicaram em “não gostei. Muitos usuários acreditam que a propaganda foi de mau gosto e que a música não condiz com o carro, além de prejudicar a imagem da empresa. Um fã da BMW chegou a criar um vídeo que mostra um carro da marca ao som de Led Zeppelin. Ao final, a pergunta: “O que você esperava? Um funk?”. Mas outras pessoas acreditam que o comercial mostra a imagem do Brasil e a consideram uma boa jogada de marketing que alcançou muitas pessoas em pouco tempo.
Bruno D’Angelo, diretor de criação da agênciaAdbat/Tesla e do comercial, afirmou que já esperava pela polêmica. Para ele, o vídeo fala sobre conquista. Ele exemplifica falando sobre atletas como Neymar e Anderson Silva, que comemoram suas vitórias dançando o “Passinho do Volante”. Marcel Dellabarba, gerente de comunicação da marca, disse que o comercial foi feito com o objetivo de se tornar um viral na internet para atrair a curiosidade dos consumidores. Ele também afirmou que a estratégia é rejuvenescer a imagem da Mercedes usando bom humor e ousadia.
A marca alemã não foi a primeira a usar funk em seu comercial. Kuat, Dell e C&A já haviam usado a mesma tática na tentativa de entreter seus consumidores. E isso se deve ao momento econômico pelo qual o Brasil está passando: o de ascensão da classe C. Ao utilizarem ícones da cultura popular, as marcas conseguem chamar a atenção desse novo público e garantem novos consumidores.
Segundo dados do IBGE, em 2011, 27 milhões de pessoas passaram das classes D e E para a C, transformando esta na maior classe social, com 54% da população. Com base em dados sobre renda, metade dessas famílias seria moradora de favelas. O levantamento Observador Brasil indica que a capacidade de consumo do brasileiro aumentou: na classe C, a renda disponível cresceu 50%, e a renda média familiar, 8%.
Em entrevista à revista Exame, o sócio-sênior da GS&MD – Gouvêa de Souza (empresa especialista em varejo, marketing e distribuição), Alexandre Horta, afirmou que essa classe passou a priorizar as marcas de sua preferência na hora da compra. Portanto, estas devem saber dialogar com seu público e trazer referências de suas raízes para conquista-los e fidelizá-los. Horta explica: “No passado, o aumento da renda fazia com que essas pessoas assumissem padrões que não eram de sua classe. Um exemplo claro é daqueles que ‘enricavam’ e para mostrar status, saíam de seus bairros. Hoje, além do consumidor ficar na periferia, ele faz questão de lembrar suas raízes e usar suas referências”.

Novo comercial da Mercedes gerou polêmica