Renata Pessôa
O grupo carioca “MC Federado e os Leleks” pode
até ter sonhado com fama e sucesso, mas provavelmente não imaginou que teria
seu hit embalando a trilha sonora do novo comercial da Mercedes-Benz. No
começo desse mês, a marca alemã divulgou um vídeo lançando seu novo
Classe A ao som do “Passinho do Volante”, música que marcou o carnaval
carioca. Se aproveitando do refrão
“Ah, lelek lek lek/ Girando, girando, girando pra um lado/
Girando, girando, girando pro outro”, o vídeo mostra o carro fazendo
manobras com a letra A em destaque.
Se a intenção da Mercedes era fazer barulho, conseguiu: o
comercial já ultrapassou dois milhões de visitas no youtube. O
público está razoavelmente dividido entre os que gostaram e os que não
aprovaram a iniciativa da marca: até agora, 11.503 pessoas clicaram em
“gostei”, enquanto 8.317 clicaram em “não gostei. Muitos
usuários acreditam que a propaganda foi de mau gosto e que a música não condiz
com o carro, além de prejudicar a imagem da empresa. Um fã da BMW chegou a
criar um vídeo que mostra um carro da marca ao som de Led Zeppelin. Ao final, a
pergunta: “O que você esperava? Um funk?”. Mas outras pessoas acreditam que o
comercial mostra a imagem do Brasil e a consideram uma boa jogada de marketing
que alcançou muitas pessoas em pouco tempo.
Bruno D’Angelo, diretor de criação da agênciaAdbat/Tesla
e do comercial, afirmou que já esperava pela polêmica. Para ele, o vídeo fala
sobre conquista. Ele exemplifica falando sobre atletas como Neymar e Anderson
Silva, que comemoram suas vitórias dançando o “Passinho do Volante”. Marcel Dellabarba,
gerente de comunicação da marca, disse que o comercial foi feito com
o objetivo de se tornar um viral na internet para atrair a curiosidade dos
consumidores. Ele também afirmou que a estratégia é rejuvenescer a
imagem da Mercedes usando bom humor e ousadia.
A marca alemã não foi a primeira a usar funk em seu comercial. Kuat, Dell e C&A já haviam usado a mesma tática na tentativa
de entreter seus consumidores. E isso se deve ao momento econômico pelo qual o
Brasil está passando: o de ascensão da classe C. Ao utilizarem ícones da
cultura popular, as marcas conseguem chamar a atenção desse novo público
e garantem novos consumidores.
Segundo dados do IBGE, em 2011, 27 milhões de pessoas
passaram das classes D e E para a C, transformando esta na maior classe social,
com 54% da população. Com base em dados sobre renda, metade dessas famílias
seria moradora de favelas. O levantamento Observador Brasil indica que a
capacidade de consumo do brasileiro aumentou: na classe C, a renda disponível
cresceu 50%, e a renda média familiar, 8%.
Em entrevista à revista Exame,
o sócio-sênior da GS&MD – Gouvêa de Souza (empresa especialista
em varejo, marketing e distribuição), Alexandre Horta, afirmou que essa
classe passou a priorizar as marcas de sua preferência na hora da
compra. Portanto, estas devem saber dialogar com seu público e trazer
referências de suas raízes para conquista-los e fidelizá-los. Horta explica: “No passado,
o aumento da renda fazia com que essas pessoas assumissem padrões que não eram
de sua classe. Um exemplo claro é daqueles que ‘enricavam’ e para mostrar
status, saíam de seus bairros. Hoje, além do consumidor ficar na
periferia, ele faz questão de lembrar suas raízes e usar suas referências”.
Novo comercial da Mercedes gerou polêmica