O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Cais do Valongo: descoberta em meio a problemas

Ana Mallet 



Com a revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro, no projeto conhecido como Porto Maravilha, parte da história da cidade começou a emergir. A presença negra e as lembranças da escravidão foram desenterradas no Cais do Valongo, porta de entrada para mais de 500 mil africanos entre 1811 e 1831. Redescoberto em 2011 após ficar 168 anos soterrado, o local faz parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana, inaugurado há um ano pela prefeitura do Rio.

Durante as escavações do Porto Maravilha, foram descobertos dois ancoradouros com uma grande quantidade de objetos de uso pessoal, incluindo amuletos e objetos de culto vindos do Congo, Angola e Moçambique. Calcula-se que o local foi o que recebeu o maior número de africanos das Américas. No século passado, a região chegou a ser conhecida como Pequena África.Em 1843, um aterro de 60 centímetros de espessura para a construção de um novo ancoradouro para receber a imperatriz Teresa Cristina soterrou uma parte da história dos africanos no Rio de Janeiro. Hoje, o Cais do Valongo transformou-se num memorial a céu aberto. Apesar de estar localizado embaixo de duas ruas movimentadas, sob o peso de canos de eletricidade, água e esgoto, o cais apresenta ótimo estado de conservação. Hoje, é uma das principais atrações do circuito cultural carioca.


A Prefeitura do Rio agora está pleiteando, junto à Unesco, que o local ganhe o título de Patrimônio Histórico da Humanidade, visto que é o único ponto de tráfico negreiro preservado nas Américas.

As obras na região portuária, que passam por um processo de reurbanização até 2016, compreendem uma área habitada por cerca de 28 mil pessoas,e abrange as avenidas Rio Branco, Presidente Vargas, Francisco Bicalho e Rodrigues Alves, compreendendo os bairros da Gamboa, Santo Cristo e Saúde, e os morros do Pinto, Conceição, Providência e Livramento.

Apesar da importante descoberta histórica, a reforma da zona portuária vem dividindo opiniões. Desde o início das obras, o Fórum Comunitário do Porto, composto por algumas associações e entidades, divulgou o “Relatório de Violações de Direitos e Reivindicações”. O documento, de 46 páginas, reúne diversas arbitrariedades cometidas pelo poder público na região. A reforma da área, que foi divulgada com o objetivo de atrair turistas para o local, está sendo interpretada pelo Fórum Comunitário do Porto como uma “privatização” da região da cidade. Uma das preocupações das associações é que os atuais ocupantes serão pouco a pouco expulsos do local.


Flagrantes de problemas nas obras da região portuária

Além das preocupações dos moradores do local, a revitalização vêm gerando incômodo nos motoristas que passam diariamente pelas ruas e vias constantemente interditadas para as obras. O jornal O Globo denunciou que, apesar dos R$ 139 milhões disponibilizados para a reforma, basta uma caminhada pelas ruas da zona portuária para perceber os problemas ainda existentes. Um dos exemplos é a fiação que não foi trocada: as calçadas foram quebradas e restauradas, mas a fiação velha continua à mostra, gerando riscos para os passantes.