O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A favela entra na moda


Divulgação
A pacificação das comunidades do Rio de Janeiro estimulou novasformas de manifestação cultural, como a moda. Em comunidades como Santa Marta eRocinha, por exemplo, é possível observar uma produção de vestuário contra-hegemônicae que valorize suas referências culturais. Esse tipo de confecção lança um espírito que dialoga com a dinâmica da favela.


A COOPA-ROCA, Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura daRocinha Ltda., foi criada nos anos 1980 para incentivar o trabalho de mulheresmoradoras da Rocinha de modo a aumentar seu orçamento familiar. O projeto, alémde gerenciar e coordenar as atividades das cooperadas, também as capacita etorna possível que elas trabalhem sem se afastar dos filhos e das atividadesdomésticas. Hoje a cooperativa tem em torno de 100 artesãos e uma loja no Shopping Fashion Mall, onde desde maio de 2012 são vendidas luminárias, peças de artesanato e roupas. A abertura da loja teve como objetivo suprir a demanda dosclientes “do asfalto”, já que as vendas dos produtos da cooperativa eram feitasapenas por intermédio de grandes marcas, como a Lacoste.


O Costurando Ideias, um grupo comunitário criado em 2002 nacomunidade do Santa Marta, realiza um trabalho artesanal feito com restos detecidos de grandes marcas e matéria prima reciclada. O projeto produz peças de vestuário e bijuterias feitos a partir de retalhos. Em 2007, o CosturandoIdeias montou um estande de vendas no Fashion Rio graças a uma parceria com aFederação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, a Firjan.


Além do design e do know-how desenvolvidos em projetos comunitários, a favela passou a influenciar também na maneira de vestir. Nanovela “Avenida Brasil”, exibida em 2012 na Rede Globo, o figurino dapersonagem de Isis Valverde, Suelen, roubou a cena e invadiu araras de lojaspopulares, como o Saara. Na sucessora da trama, “Salve Jorge”, que terminou em meados de maio de 2013, a moradora do Complexo do Alemão, Lurdinha, interpretada por Bruna Marquezine, também atraiu olhares pelas peças de roupa justas e curtas que usou. A moda “periguete”, no entanto, não está apenas restrita às classes mais baixas. De acordo com a consultora de moda do SENAC Moda, Denise Morais, odesejo de ser provocante está presente na mulher independente de seu statussocial. As cantoras Beyoncé e Rihanna, ícones pop americanas, sãorepresentantes desse estilo vestindo conceituadas marcas internacionais. Desdeos anos 80, boutiques como Dolce & Gabanna,Roberto Cavalli e Versace criam vestidos justos e que valorizam os atributosfemininos. Para a coordenadora do GNT Fashion, Lilian Pacce, a moda “periguete”reflete o Brasil.


No país, roupas de personagens de folhetins têm mais impacto nascamadas mais populares que aquelas exibidas em editoriais de revistas de moda. Para o geógrafo Jaílson de Souza e Silva, a partir do momento emque as classes C e D ascenderam economicamente formando uma nova classe deconsumidores, elas viraram protagonistas nas novelas, pondo em evidência suasreferências simbólicas, como vestuário e comportamento.