O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Destino turístico: favelas do Rio

Por Filippo Cavalcanti


Famoso pelo cenário que mescla um grande centro urbano com natureza viva e densa, o Rio de Janeiro experimenta novos atrativos turísticos. Muito além dos pontos que ilustram a cidade mundo a fora, como o Pão de Açúcar, Cristo Redentor, e as praias com seus personagens típicos, nossos visitantes também têm curiosidade pelas favelas e pela vida cotidiana das comunidades. Os passeios turísticos em favelas da cidade começaram pela Rocinha, ainda na década de 1990. Embora entusiasmados com a dinâmica, emaranhado arquitetônico e valores culturais que são característicos dessas regiões – como o espírito comunitário, exuberantes mulatas, o futebol e o samba acompanhado da boa e velha cerveja gelada entre amigos – o roteiro esbarrava na insegurança da presença ostensiva de armas do tráfico. Os noticiários não economizavam nas manchetes sangrentas e, para fazer esse tipo de turismo, além de curiosidade, era necessário coragem.

Desde que o projeto de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) saiu do papel, em 2008, o turismo nas favelas cariocas é uma demanda em ascensão. Hoje, já são 33 favelas pacificadas na cidade. A meta é beneficiar a vida de 1,5 milhões de pessoas.


Livres da ousadia do tráfico de drogas, a visita deixou de ser um perigo. Sem imposição de regras – que caso não cumpridas resultava em cobranças desleais e muitas vezes em expulsão da favela – estrangeiros deixaram de ser “persona non grata” e se tornaram, inclusive, fonte de renda para muitosmoradores. É o caso de Reginaldo Pinto, jovem de 20 anos, morador do Santa Marta, na Zona Sul do Rio, que não tinha muitas perspectivas para a vida antes da pacificação: “Sempre tive medo de me tornar uma estatística. Antes a polícia vinha, humilhava e ia embora. Isso fez com que muitos jovens, como vários amigos meus, desenvolvessem ódio pela própria condição de vida. Mas Deus escreve certo por linhas tortas, e hoje eu sustento minha família, com dignidade, sem nem precisar sair daqui”. Régi, como é conhecido, anda uniformizado pelas vielas e recebe os turistas ainda no pé do morro. Criado na favela, sabe como ninguém chegar aos pontos com vista panorâmica da cidade e arrisca as primeiras palavras em inglês: “how are you?”, diz sorrindo, com ar de aprendiz.

Depois que 100 mil turistas passearam pelo teleférico do Complexo do Alemão no ano passado, o governo federal pretende liberar recursos e investir para capacitar e qualificar as comunidades pacificadas, no sentido de melhor prepará-las para esta recepção. O ministro do Turismo, Gastão Vieira, reitera a proposta e enfatiza que as comunidades já estão inseridas no contexto turístico da cidade. Agora é a vez do poder público contribuir com infraestrutura e recursos necessários para que esta interação seja bem desenvolvida.

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas aponta que mais da metade dos turistas, sejam eles nacionais ou estrangeiros, tem desejo de conhecer alguma favela da cidade.