Patricia Cardoso
Com os recentes acidentes envolvendo ônibus no Rio de Janeiro, a discussão sobre a qualidade do serviço prestado por esse meio de transporte público na cidade veio à tona. Só no mês de abril foram contabilizadas sete ocorrências graves, como a invasão de um posto de gasolina por um ônibus em Quintino, que atropelou quatro pessoas, incluindo um bebê de três meses. No último deles, um coletivo subiu na calçada, atingiu uma banca de jornal e só parou na portaria de um prédio em Ipanema, Zona Sul do Rio.
Essa série de acidentes começou no dia 2 de abril quando o ônibus da linha 328 (Castelo-Bananal) despencou do Viaduto Brigadeiro Trompowski na pista lateral da Avenida Brasil. Oito pessoas morreram e onze ficaram feridas, entre elas o motorista e o passageiro que o teria agredido. Segundo a polícia, os dois são os responsáveis pela queda do coletivo e vão responder por homicídio doloso, quando se assume o risco de matar.
Segundo o dossiê Trânsito 2012, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública, os acidentes que ocasionaram vítimas fatais ou não são em sua maioria categorizados por homicídio ou lesão corporal, o que diferencia do caso ocorrido no início do mês. Só em 2011 foram registrados 2.513 vítimas de homicídio culposo, um aumento de 4,7% comparado ao ano de 2010.
A partir dessa ocorrência, inúmeras queixas começaram a surgir. Motoristas e cobradores reclamam do salário, da enorme carga horária de trabalho, do estresse do trânsito e da estrutura dos coletivos. Segundo dados da Ouvidoria da Secretaria de Transportes, só em 2012 foram registradas 28.294 reclamações de passageiros. As mais frequentes foram não parar no ponto, comprometer a segurança, arrancar ou frear bruscamente e a superlotação.
Em paralelo a isso, as estatísticas dos Bombeiros só comprovam o perigo que funcionários e passageiros passam todos os dias. Nos últimos quatro anos, a média foi de quase dois acidentes com vítimas por semana envolvendo ônibus. Ainda de acordo com o dossiê Trânsito 2012, os meses de agosto e dezembro se destacam como períodos de pico de acidentes. Já os meses de março e novembro registram os menores percentuais com 7,7% e 7,9%, respectivamente.
A situação dos ônibus é caótica. A principal razão para isso é o próprio sistema de transporte vigente na cidade, em que os coletivos são responsáveis por transportar 70% da população. Não houve investimentos nos trens e metrô o que prejudica o tráfego na capital fluminense.
Visando melhorias no transporte público, o secretário de transportes, Carlos Roberto Osório, anunciou que irá apoiar o programa de qualificação de motoristas, realizado pelo Sest/Senat. Com a medida ele pretende reduzir o número de acidentes no trânsito e dar melhores condições de trabalho aos motoristas.
Quem anda pela cidade pode observar vários anúncios de empresas convocando motoristas para contratação imediata, mesmo sem qualquer tipo de experiência. Essa situação se evidencia ainda mais com a proibição de vans circularem na Zona Sul da cidade. Consequentemente houve um aumento da frota de ônibus, o que obriga um maior número de motoristas disponíveis.
Além disso, a fiscalização desse transporte na cidade é deficiente. Atualmente, apenas 40 pessoas são responsáveis por fiscalizar nove mil ônibus, 33 mil táxis e seis mil vans. Em vez de o número aumentar, ele foi reduzido nos últimos anos e de acordo com entrevista dado pelo prefeito Eduardo Paes ao jornal O Globo, não haverá uma ampliação no número de agentes. Ele acredita que o número de fiscais será sempre insuficiente e um aumento pode levar a mais corrupção.
Já o ex- secretário de Transportes, Miguel Bahury acredita que é necessário maior rigidez por parte da prefeitura e também das empresas de ônibus. Para ele, a Secretaria de Transportes deveria receber online informações sobre infrações e com isso poderia estabelecer medidas corretivas a tempo.
Em meio a todas essas críticas, o Prefeito Eduardo Paes anunciou que o reajuste da passagem nos coletivos irá aumentar em junho, mas que o novo índice ainda não está definido.