De um lado, a sociedade civil organizada – e também a prefeitura do Rio - fazem campanhas de incentivo ao uso do transporte alternativo (na maioria das vezes a bicicleta) para diluir a densidade do trânsito na cidade e reduzir o impacto ambiental dos veículos motorizados. Por outro lado, o poder público – inclusive a mesma prefeitura do Rio – não cria infraestrutura para assegurar o deslocamento seguro para quem tenta contribuir com uma cidade menos caótica.
Três acidentes – dois deles fatais – abriram o debate sobre as medidas que devem ser tomadas para harmonizar o espaço e vias públicas entre ciclistas e motoristas. Na Zona Sul, onde a cultura de pedalar é tradicional, e outro, ontem mesmo, na Praça da Bandeira, Zona Norte da cidade. A vítima, o ciclista Alberto da Silveira Junior (40), promete processar o motorista docoletivo. Os acidentes da Zona Sul levaram a vida do triatleta Pedro Nikolay, de 31 anos, na última terça-feira, e da diretora de televisão Gisele Matta (36), no início do mês de abril.
Em todos estes casos, ônibus – e obviamente seus motoristas –, estão envolvidos, pondo em xeque a qualidade do sistema de transporte público da cidade que, por sinal, detém a segunda maior malha cicloviária da América Latina (somente atrás de Bogotá), com seus 240 km de vias. A cidade que vai receber Copa do Mundo de futebol e as Olimpíadas pretende ganhar, até 2016, mais 150 km de vias destinadas preferencialmenteaos ciclistas. O aumento das ciclofaixas, mais o crescente número de multas por parte de ônibus e desordem no trânsito criam uma equação perigosa. E de difícil resolução.
Mesmo multados, os coletivos, motoristas e empresas de ônibus seguem livres de punições. São 51.888 infrações só nos três primeiros meses deste ano. Isso quer dizer que, divididas entre a relação de tempo e número de ônibus que circulam pelas ruas do Rio, a conta fecha com média de 577 multas por dia, logo, uma a cada dois minutos e meio.
Realidade assustadora atribuída também à pouca mão de obra para conter a desordem. O número de agentes para fiscalizar toda a frota de ônibus, táxis e vans do município cha a ser risível: apenas 40. Em nota, a FETRANSPOR (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de janeiro) que tem como slogan “mobilidade com qualidade”, alega que “incentiva, apoia e mantém estrutura para que as empresas invistam na capacitação dos profissionais”, através de cursos que treinaram 17.290 motoristas desde 2006.
Enquanto o dilema não se transforma em condições seguras, tanto para quem utiliza o transporte público, quanto para transeuntes e adeptos do “transporte alternativo”, dezenas de ciclistas se reuniram ontem em Ipanema - aproveitando o feriado que mantém a via da orla fechada para lazer – para homenagear o triatleta morto, protestar e reivindicar discussões mais amplas – e efetivas - sobre o respeito no trânsito.