O Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. A partir dessa constatação, os alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo (2013.1) estão divididos em quatro editorias para acompanhar, reportar, discutir, refletir e investigar, em abordagem jornalística, o que, quando, onde, como e por que muda.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

E o passado como fica?

Igor Ricardo

O título de “Cidade Olímpica” impôs ao Rio de Janeiro a tarefa de se reestruturar para atender as demandas impostas pelo megaevento internacional. Novos corredores expressos, estádios, áreas de hospedagem e habitações estão sendo construídos com essa finalidade. Ao mesmo tempo em que o município busca a modernização de sua infraestrutura, os órgãos executivos lidam com a necessidade de garantir a manutenção dos espaços históricos existentes na capital. De acordo com a Subsecretaria de Patrimônio Cultural, são 2.097 imóveis tombados e 9.098 preservados na cidade.

Por causa das obras do projeto Porto Maravilha, na Zona Portuária, o Centro é o local que deve concentrar maior atenção das autoridades, já que quase a metade dos bens culturais está situada no espaço. Nos próximos quatro anos, a região receberá a instalação de modernas construções, baseadas em um conceito sustentável e com paredões espelhados. Essa arquitetura difere dos edifícios já instalados por lá. Um exemplo é o edifício A Noite, tombado no início do mês pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) . O prédio é referência da art déco carioca, lembrada por suas linhas geométricas, e é considerado o primeiro arranha-céu da América Latina.

O edifício passa por uma reforma e deve abrigar um museu voltado à preservação da história da Rádio Nacional. A obra também faz parte da iniciativa de revitalizar a Zona Portuária e tem previsão de inauguração para o fim do ano. Construído em 1929, o prédio abrigou até outubro de 2012 as instalações da antiga emissora de rádio, que foi responsável por lançar importantes nomes da música brasileira, como Ari Barroso e Francisco Alves. Mas, enquanto algumas construções antigas são modernizadas e reintegradas à sociedade, outras sofrem para se manterem de pé.

A convivência entre o novo e o antigo não é unanimidade entre os urbanistas

Em entrevista para o jornal O Globo, o arquiteto Luiz Fernando Janot, professor e conselheiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o Rio de Janeiro erra ao investir em construções grandiosas, quadradas e extravagantes. Na opinião dele, esses projetos apresentam gosto duvidoso e são “espetaculosos”. Entretanto, há quem valorize os futuros imóveis porque funcionam como incentivo à expansão imobiliária na região do Porto. Para isso, um Termo de Compromisso já foi assinado entre a Prefeitura e o Fundo de Investimento Imobiliário Porto Maravilha, gerido pela Caixa Econômica Federal, com o objetivo de estabelecer regras na construção dos edifícios e de como eles serão aproveitados depois das Olimpíadas de 2016.

Em maio do ano passado, o governo do estado do Rio de Janeiro vendeu o terreno onde funciona o Quartel-General da Polícia Militar, no Centro, para a Petrobras por R$ 336 milhões. A expectativa é de que a empresa construa ali sua nova sede. E para que isso ocorra, o complexo instalado na região deve ser totalmente derrubado. A demolição está sendo duramente criticada por causa do valor histórico do imóvel, inaugurado em 1740. Um dos opositores da medida é o coronel da reserva Milton Corrêa da Costa. Em texto publicado no blog do jornalista Luis Nassif, o militar questiona se não seria melhor modernizar as instalações existentes, já que a justificativa da venda é esta. Além disso, outra preocupação é a preservação da capela de Nossa Senhora das Dores, que fica dentro do prédio. O santuário foi erguido no século XIX. Apesar dos questionamentos e do evidente valor histórico do QG da PM, o prédio nunca foi incluído na lista dos bens preservados ou tombados do município. Desde 2009, existe um projeto de lei na Câmara de Vereadores do Rio para tombar a área, porém a proposta nunca foi votada.

Outro caso polêmico é a remoção da Unidos da Tijuca do seu atual endereço, na Leopoldina, para dar lugar ao complexo corporativo do empresário Donald Trump. Fundada em 1931, a agremiação pode ficar sem teto por causa das intervenções de melhoria na Zona Portuária. O fato de ser a terceira escola de samba mais antiga do país não sensibilizou as autoridades municipais, que já aprovaram o projeto do bilionário americano. O empreendimento deve começar a ser erguido no segundo semestre deste ano. De acordo com o presidente da escola, Fernando Horta, a Prefeitura ofereceu dois terrenos para a construção da nova sede, um em Santa Teresa e outro na Tijuca, mas os locais indicados não atendem aos interesses comerciais da instituição. Até o momento, a escola de samba não sabe onde será sua nova sede.

O projeto Porto Maravilha foi lançado em 2009 com o objetivo de reestruturar e modernizar a área do Porto carioca. A iniciativa abrange uma região de 5 milhões de metros quadrados e vai atingir cerca de 22 mil moradores de seis bairros. A derrubada do Elevado do Perimetral e a transformação da Avenida Rodrigues Alves em uma via expressa são as metas mais ambiciosas do programa, orçado em mais de R$ 8 bilhões.