Mariana Broitman
O Instituto Pereira Passos acaba de anunciar a
realização de um novo mapa da cidade do Rio de Janeiro. A decisão simboliza um
grande avanço no que diz respeito à integração do Rio de Janeiro - da praia ao
morro, do asfalto a favela.
Em 1990, a capital fluminense
realizou o mesmo processo de mapeamento digital e englobou as regiões da Barra
da Tijuca, Jacarepaguá e Recreio ao novo formato. Em 1997, Zona Sul e Zona
Norte ganhavam contornos, e só em 2000 acontecia o mesmo com a Zona Oeste e
o Centro. No entanto, apesar dos novos recursos tecnológicos serem capazes de verticalizar a cidade através dos contornos os
morros cariocas, intervenções paralelas já fazem o Estado subir as ladeiras das
comunidades de outras formas.
As Unidades de Polícia Pacificadoras
foram os primeiros representantes de fato do Estado a fazê-lo, e reformularam
as relações entre os moradores e a polícia. A pesquisa da UNESCO em parceria
com a London School of Economics and Political Science (LSE), revelou que 93%
dos participantes gostam de morar no Rio, mas o vínculo afetivo que liga a
favela à cidade ainda é distorcido. No entanto, a presença de ONGs como o
Afroreggae e a Central Única das Favelas (CUFA) já trabalham essa inserção do
morador de comunidade como carioca há um bom tempo.
Fruto disso, a ascensão da classe C colocou as favelas cariocas também no
mapa do consumo da cidade. A nova classe de consumidores agora é caricaturada
em novelas e não sai também das telonas brasileiras. Com bom humor e inclusão,
está se trabalhando algo que apesar de novo para o grande público, é, no
entanto, uma manifestação desse movimento de inclusão.
A arte, a cultura e a criatividade são as ferramentas que vem
subvertendo estereótipos, conectando enfim dois espaços urbanos antes separados
por muros que por vezes sequer existiam. Se antes o papel principal era de
mediar conflitos, agora essas e outras ONGs constroem parcerias inusitadas com
movimentos sociais, com a mídia e o setor privado, mas principalmente, com o
Estado – já que por muito tempo compensaram as fragilidades públicas.
O Afrroregae levou a favela ao Theatro Municipal para abrir o discurso
do Presidente norte-americano Barack Obama e participou da inauguração do Banco
Santander no Complexo do Alemão – o primeiro banco em favela, bem atento aos
novos potenciais consumidores. Um evento organizado por Tania Lopes, irmã do jornalista
Tim Lopes, também foi
organizado por lá, em uma tentativa cheia de sucesso de findar qualquer ruído da mídia entre o morro e a
família do jornalista assassinado na favela. Descaracterizar o
espaço como violento é algo que ainda vai levar tempo, já que de fato, a
presença das UPPs não garante completamente a segurança.
Se os primeiros passos
eram dados com construções como o Centro Cultural Waly Salomão em Vigário Geral
– que já foi visitado até pela Madonna – e o Viaduto em Madureira, hoje os
contornos são outros. O turismo, por exemplo. Hostels como o Vidigalbergue e o Ocean
Inn no Vidigal já representam passos independentes das comunidades. O chamariz?
As atividades gratuitas e a efervescência cultural. Além, é claro, do churrasco
com vista para as praias do Leblon e Ipanema. E não são só turistas, cariocas
de todas as zonas sobem o morro atrás da imensa lista de festas a cada fim de
semana.
A gastronomia virou livro, com o Guia de Gastronômico das favelas, de
Sergio Bloch. O Planetário da Gávea, desde 2009, sobe uma comunidade por mês
com o projeto Luneta na Laje – na próxima semana é a vez do Turano. Com a
Jornada Mundial da Juventude se aproximando favelas pacificadas da
Zona Oeste se preparam para receber visitantes do mundo inteiro dentro de casa.